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domingo, 25 de junho de 2017

Judite, o inferno e a merda


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Este podia ser o retrato de Sebastião Pereira, pseudónimo português do jornalista Jacinto Leche Acá Por El Riego, o tímido - ou modesto, vá lá -, enviado especial do jornal espanhol El Mundo ao inferno de Pedrogão Grande, mas não é.
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Trata-se da conhecida jornalista Judite de Sousa. Judite também foi a Pedrogão Grande, em reportagem, mas para a TVI. E tornou-se notícia porque se fez filmar, em directo para o seu publicozinho, ao lado de um cadáver. O que torna no entanto a coisa chocante não é apenas a exibição do cadáver. É o facto de Judite ter mentido ou distorcido os factos, lançando sobre os bombeiros uma mais do que vaga suspeição de que andavam por ali algures na pândega: Está um corpo aqui ao meu lado, de uma senhora, que ainda não foi recolhido, apesar de os bombeiros se encontrarem muito perto deste local”, dizia ela, ao lado de um corpo já piedosamente coberto com um manto branco num espaço devidamente circunscrito.
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Judite pratica com as mãos ambas, e os pés, aquele tipo de jornalismo que dá que falar. Não pelo assunto de que fala mas pelo modo como fala do assunto. Para ela todo o assunto se torna pessoal, emocional, levado ao sentimento. Judite espreme-o sempre até ao tutano para que dê mais molho, sempre mais e mais repugnante. Não tem nada que ver com objectividade; é apenas mórbido, além de estúpido.
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Além disso, Judite é uma jornalista que é, ela própria, imensamente mediática. Não há nada da sua vida privada (os seus casamentos, divórcios, namoricos, funerais e outras festas, viagens de férias, testamentos, etc, etc.) que ela não partilhe com o grande publicozinho que se interessa por assuntos de merda, através da imprensa especializada na matéria.
Judite é uma jornalista-vedeta. Não sei se estão a ver, aquele género de jornalista que, muito mais do que entrevistar, gosta de dar entrevistas. Enfim, de dar nas vistas. O que faz dela um caso exemplar de - como dizê-lo de outro modo? - autêntico jornalismo de merda. Tal como o inefável Sebastião Pereira e o jornal El Mundo, por supuesto.
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quarta-feira, 21 de junho de 2017

o coro das velhas

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A Figueira não tem Arte Nova nem ovos moles, como Aveiro; nem Arte Urbana e o Grão Vasco como Viseu; Nem biblioteca joanina e Machado de Castro, como Coimbra; nem castelos, como Montemor e Leiria; nem Woolfest como a Covilhã; nem expofacic como Cantanhede; nem palheiros como a Costa Nova; nem jardins como o do Paço Episcopal de Castelo Branco, o Botânico de Coimbra ou o Budha Eden do Bombarral; nem bicicletas como Águeda; nem vinhos como a Beira Interior, a Bairrada e o Dão; nem cerejas como o Fundão; nem queijo como a Serra de Estrela, nem chanfana e leitão como a Bairrada.
A bem dizer, a Figueira não tem porra nenhuma – não possui património histórico ou artístico e não produz a ponta de um chavelho - a não ser o areal mais comprido da Europa. Segundo o circunspecto site do Turismo Centro de Portugal, não há nada que realmente interesse na Figueira da Foz. Ou seja, a Figueira da Foz é, e isto é mais ou menos pacífico, um verdadeiro oásis na zona centro.

Igualmente desprovida de cultura gastronómica (não tem sequer um prato típico ou um doce característico) a Figueira tem, no entanto, Rosa Amélia. Sim. A Figueira tem Rosa Amélia que, por sua vez, tem um restaurante. O mundo inteiro e a própria Figueira sabem-no através da televisão. Sim, porque Rosa Amélia é um fenómeno televisivo. Não há porra de programa de TV que seja transmitido em directo desta choldra que não se socorra (certamente aconselhado pela entidade ligada ao turismo) da iniludível, incontornável e inefável presença desta figura. Os clientes do mercado municipal sabem que sempre que Rosa Amélia ocupa o seu posto na banca de peixeira é porque as câmaras da televisão estão a chegar. Os tele-espectadores de todo o país já todos conhecem da trás para a frente a sua estória de vida, a estória da sua vida, o seu pregão, o seu turbante, os seus aventais, o seu peixe, o seu marisco, o seu sacrificado empreendedorismo, as suas chinelas, o seu restaurante. E agora até o seu hobby, o surf. Nem mais, que Rosa é uma peixeira surfistinha. Um verdadeiro ícone local.

Mas a Figueira tem outras figuras que ganham vida diante de uma câmara de tv. Igualmente icónicas, digo eu. O país inteiro e eu, que no passado Sábado à tarde não mudei de canal logo depois do sonolento Rússia-Nova Zelândia, assistimos inermes, em directo da Figueira e entre dois números musicais pimba, à habitual performance de Rosa Amélia anunciando o seu restaurante - mas também, estarrecidos, à revelação de outra dessas figurinhas; isto é, ao nascimento de mais uma estrela no firmamento figueirinhas.

Outra velha. Mais feérica, exuberante e insinuante ainda do que Rosa Amélia, e igualmente assertiva a vender o peixe. De cabelo vermelho e atitude encarniçada a condizer, Conceição Ruivo (é esta a sua graça, registem) perseguia insistentemente a pobre apresentadeira do canal 1 da RTP pela esplanada, ora mostrando-lhe as maravilhas da sua arte (a senhora é artista): um incrível bricabraque de coisas coladas numa tela e uma outra com azulejos bordados e rendas pintadas (ou vice-versa, não percebi bem), ora anunciando-lhe coisas de si própria - que preside à “maior associação de artistas do país”, que vai fazer “uma bruta” exposição pró ano no CAE e tal, e que patati e patatá vai escrever um livro erótico e tudo.


A Figueira não tem nada que realmente atraia o turismo ou a simples curiosidade. Ninguém se desloca de propósito à Figueira para ver a torre do Relógio ou o penico do Jordão, ou a rotunda do farolito, ou qualquer uma das suas rutilantes urbazinações ou das gandes supefíces licenciadas recentemente pla autarquia. Mas tem figuras realmente bizarras. Podia montar um circo. 
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sábado, 3 de junho de 2017

O Aristóteles de Nevogilde ou a filosofia política moreira

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O gosto das maiorias sempre foi para mim um mistério. As razões da preferência de um grande número de pessoas por um determinado coiso ou coisa são para mim fontes inesgotáveis da mais espampanante perplexidade. A popularidade é, portanto, um fenómeno que não entendo. Não entendo fenómenos de massas. Ao contrário da maioria, sou de opinião de que gostos é que se discutem. Sobretudo se inexplicáveis. Não há nada mais discutível do que o inexplicável. Como o temor de Deus, o amor à pátria ou o gosto popular, por exemplo.
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Este postal é sobre um desses fenómenos inexplicáveis. Rui Moreira. O actual presidente do município do Porto. Moreira é um burguesinho da Foz que é muito popular na Pasteleira, e no Aleixo. Atingiu um tal grau de identificação com o populacho que pode fazer absolutamente nada e dizer absurdamente tudo que o seu, digamos assim, prestígio entre as massas não é minimamente beliscado entre as elites, e vice-versa. Moreira podia sair à rua com um revólver e alvejar um sujeito qualquer ao acaso que não lhe acontecia nada (desde que o desinfeliz fosse cigano, preto, mouro, paneleiro pobre ou comuna, claro).
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Moreira fez fortuna com investimentos lá fora. Transportes marítimos. Contentores e tal. Aos trinta e cinco anos vendeu as empresas (e as cargas e os contentores) e dedicou-se a prazeres mais sofisticados. Fez-se dandy. Cultura, laifestaile e assim. Nos tempos livres ainda presidiu durante dez anos aos destinos da Associação Industrial Portuense mas tornou-se conhecido do grande público por comentar casos de futebol (eu já tinha sugerido que ele era um erudito) num pugrama de televisão que se chamava trio d’ataque e que era assim uma espécie de peladinha de câmara com cinco violinos menos dois e sem bola. Ainda hoje escreve uma coluna no jornal A Bola, chama-se a coluna do senador. Entretanto candidatou-se à câmara da imbicta como independente, com o apoio do CDS e venceu, sem espinhas. Governou então durante quatro anos em união-de-facto com dois tipos do PS aos quais no fim deu um xuto no cu para grande gáudio da sua crescente base de apoio, para quem são atitudes assim que fazem um líder político completamente independente dos partidos.
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Ninguém sabe muito bem o que o homem pensa sobre porra nenhuma. Talvez seja mesmo isso que faz a sua aura. A verdade é que as maiorias detestam a política, e os partidos, e o caralho. E Moreira não é um político. É um poeta. As pessoas adoram poetas - como Toni Carreira ou Jesus (o de Nazaré e o do zbórdeng) - falam por metáforas, estranhíssimas e bizarras, que ninguém entende mas em que todos lobrigam profundos e sentenciosos sentidos. Moreira é, por tanto, um poeta apolítico independente dos partidos, esses malvados. Um rebelde sem causa perdão, com causa. Sim, que a sua causa é o Porto. E a sua política o trabalho. Não sei se estão a ver. Exactamente. Como as maiorias gostam.
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Recentemente porém Rui Moreira abriu o coração. Em conferência sobre, segurem-se, “A crise das lideranças”, na universidade portucalense, Moreira partilhou com o mundo e com o imenso universo dos seus apoiantes o esplendor do seu pensamento, digamos assim, “político”. E Moreira, além de poeta, revelou-se um filósofo. E o que diz então Moreira, o Aristóteles de Nevogilde, à rapaziada da Pasteleira (e da Boavista, e do Aleixo), uhn?

- Pois bem, diz que Há um caminho óbvio, e é mais óbvio do que parece, que é um dia nós voltarmos a ter ditaduras. Quando o Salazar chegou ao poder ele criou o nome ditadura nacional e não era nada insultuoso. É bom que se tenha isto como claro. Esta história de que a democracia é uma coisa infalível, que não termina, não é verdade. Vejam o que está a acontecer na Turquia (…) Para termos a nossa soberania económica, na segurança, podemos ter que precisar de ditaduras. Espero que não seja assim, mas pode suceder. Foi isso que aconteceu com o 28 de maio. Portugal estava falido, não havia ordem, não havia disciplina, a 1ª Guerra Mundial tinha sido um desastre e de repente o país quis aquilo. O 28 de maio não foi feito por uma minoria. Isso pode voltar a acontecer”.
Os sublinhados são meus. Digam lá que não é encantador, ah e tal “de repente o país quis aquilo”. Não há como deixá-los falar. Tudo se torna revelador, sem deixar de ser inexplicável.
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- Mas como é possível afinal que uma cidade (a cidade de Almeida Garrett) a quem um rei libertário ofereceu literalmente o seu coração depois de abdicar duas vezes, de repente queira isto?
- A única resposta lógica mas inexplicável, e possivelmente também inquietante, é que talvez o mereça.
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sexta-feira, 26 de maio de 2017

sexta-feira, 19 de maio de 2017

uma campanha alegre,

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A recente campanha de márquetingue lançada pla câmara Municipal da Figueira da Foz, que "inclui um novo logotipo para acções de divulgação turística", é o mais acabado exemplo de desfaçatez, cara-de-pau, falta de jeito, de graça  e de ideias próprias que me foi dado assistir nos últimos tempos. Um autêntico caso clínico da mais cínica e disparatada  palermice armada aos cágados. Elaborada por uma "empresa especializada", esta bizantina e patética campanha pretende demonstrar aos próprios figueirenses, em linguagem totalmente cifrada para estranhos, que "a Figueira é diversa" e que "acaba por ser de todos e para todos". A coisa atinge o cúmulo da bizarria porque, ao que li, parece que pretende ser de âmbito nacional. É um pouco como se, para promover as delícias do deserto, a Namíbia fizesse o marquetingue da coisa inteiramente em Khoisan (a língua local, aquela dos cliques).
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Acontece que "de todos e para todos", apesar de até nem ser muito original, foi precisamente o slogan que a Coligação Democrática Unitária (CDU) apresentou em 2013, na última campanha autárquica.
Não pretendendo exprimir-me em nome da coligação que então representei como independente (tão garbosamente que tornaram a convidar-me este ano) atrevo-me contudo a dizer que esta apropriação de um slogan de campanha não me choca nem um bocadinho. A verdade é que a rapaziada não tem grande apreço por conceitos como propriedade privada (sobretudo de meios de produção). Gostamos de partilhar. Por isso mesmo, e pla parte que me toca, quero registar o meu lamento por a Câmara Municipal se ter ficado apenas pelo slogan. E lavrar o meu mais pungente e veemente protesto por que não se tenha apropriado também do programa.
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Acontece também que a coisa não ficou apenas por aqui. Nessa campanha, em 2013, permiti-me (no meu blogue pessoal, este mesmo), e sem comprometer a coligação pela qual me batia, fazer a minha própria campanha pessoal - à minha maneira, nãseissestãoaver. A ideia era contribuir para o esclarecimento dos que me visitavam levando-os a votar ou a  não votar na coligação que representava. Como não sei botar discurso fiz o que sei, que é desenhar, escrever, cortar, colar, juntar, montar. Assim elaborei umas quantas vinhetas, uma por dia, tantas quantos os dias da campanha. Coisas simples e despretensiosas, nas quais me diverti avacalhando solene e regaladamente alguns conceitos ou valores muito apreciados pelo gosto dominante na Figueira, tais como o casino, a misericórdia, o respeitinho, a obra-feita, a conveniência ou o eufemismo. Como esta, esta, esta, esta, esta ou esta; mas atentem sobretudo nesta.
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Se o conceito e o argumento vos parecerem familiares, espero que se juntem a mim num lamento. É verdade que o plágio, a citação ou a cópia são formas de homenagem; Leonardo dizia mesmo aos seus pupilos: "copiai, copiai, meus lindos; copiar é já aprender". Mas não há nada mais triste e humilhante do que ser-se homenageado por imbecis; e constrangedor, porque à custa do erário público.
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quarta-feira, 26 de abril de 2017

A Dendrolatria

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Para ser grande, sê inteiro: nada
          Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
          No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
          Brilha, porque alta vive 


Ricardo Reis, in "Odes" 
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Descobri a palavra há poucos dias, através de António Amaro das Neves, no “Memórias de Araduca”, magnífico blogue sobre a sua cidade, Guimarães (também na barra lateral, em ligação permanente). Neves, por sua vez, aprendeu-a do grande Ruben Fonseca, outro dendrólatra confesso, e escreveu sobre isso a propósito de mais um projecto de atentado ambiental na sua cidade.
Enquanto isto, na Figueira discute-se (pouco, mal e porcamente, como sempre) a proposta do novo PDM do presidente Ataíde - uma espécie de nova jihad dos novos patos bravos à cidade - ainda que com as mesmas habituais cedências a interesses instalados e os mesmos concomitantes atentados ao ambiente, ao bom-senso e ao bom-gosto. Eu tenho-me dedicado à pintura. Encontrei um novo motivo. Decidi pintar uma árvore; não há muitas no meu trabalho e não quero merecer o reparo terrível que alguém apontou a Camilo, ”não existe uma única árvore em toda a sua obra”. Klimt, no início do século vinte, fez maravilhas com motivo tão prosaico. E Hockney, recentemente, também. A foto acima documenta o quadro numa fase ainda incipiente (o meu trabalho é muito lento, por vezes penoso e absorvente, o que explica o relativo abandono do blogue, pelo qual desde já peço desculpa aos seus seguidores mais fiéis).
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Confesso que sempre gostei de árvores. No princípio, na infância, com uma muda fascinação e, com os anos, com profundo respeito e por fim com uma autêntica e sincera devoção. É verdade, sou um dendrólatra. Não o escrevo porém, agora que conheço a palavra, com particular orgulho. Não me orgulho aliás por ser como sou, limito-me a sê-lo. Como as árvores.
O segredo, e o mistério, das árvores é o tempo – e o silêncio. Como da vida, e da pintura. Esse mistério, ou segredo, é uma longa paciência da qual só se retira algum exemplo vivendo, observando, reflectindo, fazendo.
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O quadro que tenho vindo a compôr – é disso que se trata, de uma composição – é pois sobre esse objecto da minha idolatria: uma única árvore (na verdade, uma das minhas nespereiras) com todas as suas folhas, as vivas e as mortas. Num rectângulo em pé, o tronco cresce-lhe desde a base e a copa ocupa-lhe dois terços da superfície superior tomando a forma vaga de um quadrado, deitado, do qual pende um baloiço. O todo quase só numa cor, ainda que em todas as suas declinações tonais, com breves e pacientes pinceladas em sucessivas e diáfanas velaturas.
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Mas não é apenas isso. Tal como a imagem que uma árvore deixa ver de si própria é apenas metade (a outra está subentendida na paisagem, subterrânea), nesta pintura também estou eu, inteiro, a minha vida, a minha casa, enfim o meu caso - ainda que também não à superfície.
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E este quadro, além de ter sido o feliz achado de um novo motivo, é também um lamento - um triste e desalentado lamento - por viver num tempo, numa cidade e entre uma gente que convive tão alegre e tão pacificamente, em alarve harmonia, com uma classe política tão velhaca e tão medíocre. E também um protesto - contra a estupidez de um poder autárquico comandado por um capitão Ataúde com o freio nos dentes para aterrar toda a várzea da cidade em grandes superfícies comerciais; um poder local cuja visão de pugresso se permite - pla voz inefável de Ana Carvalho, a vereadora do urbanismo, a propósito da alienação dos terrenos do horto municipal a um empório de mercearias - esta abóbrinha de auto-satisfação imbecil e desmiolada que não ficava mal a um especulador imobiliário: “Quanto mais se valorizarem os terrenos, melhor para a câmara”.
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Lamento que é apenas um suspiro, ou murmúrio, como os das árvores, e sobre cujos possíveis efeitos, ou repercussões, confesso, não tenho ilusões. Num concelho cujo município tem cada vez menos funções (o abastecimento de água potável, a recolha do lixo e agora até já o tratamento dos espaços públicos e do património ambiental, são negócio de privados) a sua única atribuição parece ser a recolha de fundos (a venda de património, como uma agência imobiliária) para pagar os serviços.
A verdade é que o povo não lê. O povo nem sequer - diverte-se na lama, como referiu Cesário Verde – refocila no futebol e, entre bjecas, tramossos e minuíns, na vida íntima das celebridades, na sordidez dos casos de polícia, nas gordas do Correio da Manhã, nos milagres dos pastorinhos, no Face-Book, passeia a família no xópingue ao Domingo, apoia a selecção e festeja o 25dAbril com corridas de carretas.
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Quanto a mim, ainda que não tenha atingido ainda a sua sabedoria, tento fazer como as árvores. Elas dão as suas folhas, flores e frutos sem pensar a quem ou para que possam servir. Sem ambição nem esperança, sem religião nem moral - até ao apodrecimento, esse fim, ou princípio, inexorável de tudo.
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sexta-feira, 14 de abril de 2017

isto é muito bom.



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Como este é um blogue de desenhos, achei que ficava bem aqui.
Descobri-o há pouco. Morte e Vida Severina, do grande João Cabral de Melo Neto, que já retratei aqui. É muito bom. Texto integral. Fiel à aspereza do texto, o desenho do cartunista, também pernambucano, Miguel Falcão. Ora vejam.
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domingo, 26 de março de 2017

Cesário Verde, Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
    Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
    E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
    E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve conta à botica!
    Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
    Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A Imprensa
    Vale um desdém solene.

Com raras excepções, merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e a paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua "coterie";
Ea mim, não há questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimento finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exactos,
    Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a "réclame", a intriga, o anúncio, a "blague",
E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe a luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
    Que mundo! Coitadinha!
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