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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Mathias Énard

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O ano de 2016 foi um ano de merda. Mas foi, como também são todos, um ano de descobertas para quem lhe sobreviveu . Uma delas foi, para mim, a de um grande escritor. Mathias Énard. Há quem o compare a Balzac, a Malraux, a Céline, a Joyce, até a Homero. Tretas. Eu acho que se trata de um caso único. De outro caso. Um Caso à parte.
Torrencial, erudito, inventivo na linguagem, ousado na forma, ambicioso na atitude com que encara a literatura como obra de arte total, Énard foi para mim a revelação de que esta pode ser algo bem mais elevado do que a pessegada fácil e sentimental que se vende nos entrepostos grossistas de papel que agora passam por livrarias e nas grandes superfícies.

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Leiam. A Dom Quixote já lhe editou em português pelo menos Zona, Fala-lhes de batalhas, de reis e de elefantes e, mais recentemente, Bússola. O rapaz (é mais novo do que eu, o cabrãozinho) é dos bons. Vão por mim.
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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Auto-retrato

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Começo o ano olhando para dentro. Introspecção. Sem espelho e, como de costume, sem contemplações.
Bom ano novo para vocês também.
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Tom Zé

Vá tomar!

Meta sua grandeza
no banco da esquina,
vá tomar no verbo
seu filho da letra

meta sua usura
na multinacional
vá tomar na virgem
seu filho da cruz.

Meta sua moral,
regras e regulamentos
escritórios e gravatas
sua sessão solene.

Pegue e junte tudo
passe brilhantina
enfie, soque, meta
no tanque de gasolina 

Tom Zé, No jardim da política
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domingo, 4 de dezembro de 2016

abobrinha

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Fomos pioneiros na afirmação da cidade como espaço de festejos

João Ataíde, presidente da Câmara Municipal da Figueira da Foz
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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Fidel

Este ano vai aziago. E parece que nunca mais acaba.
Agora morreu Fidel Castro. No dia 25 de Novembro, Sexta-Feira. 
Nesse mesmo dia funesto porém também morreu alguém que me foi muito mais próximo do que o comandante, depois de uma longa e devastadora agonia. O funeral foi no Domingo.
De maneira que não tive sequer ânimo para fazer aqui uma referência a Fidel.
Mas ela aqui vai.
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Faço-o com uma caricatura e uma frase que o meu amigo Daniel Abrunheiro colocou na sua página do Face-Book: “Todo o gajo que durante mais de meio-século é capaz de manter um pau cheio de pregos no cu dUSAmericanos - é meu gajo.VIVA FIDEL!”.
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A verdade é que, para além disso, muito para além disso, Fidel foi capaz de lograr instituir a partir do nada – apesar de um embargo implacável por parte da maior potência militar e económica de todos os tempos – um serviço de saúde exigente e competente e universal e um sistema de ensino também universal e exemplar.
Fidel ainda foi capaz de dizer na ONU, perante todos os estados do mundo, sem absolutamente nenhum medo de ser desmentido pelos factos: “Hoje, milhões de crianças vão dormir na rua. Nenhuma delas é cubana”.
Foi ou não foi um gajo do caralho?
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Apesar disso, Fidel é muito criticado tanto pela direita mais hard como pla esquerda soft. Um tirano, dizem eles. É assim a vida; há quem pense que é possível que um jardineiro possa produzir belas e cheirosas rosas ou morangos sem sujar as mãos com estrume. Mas não é.
Fidel sobreviveu a seiscentos e tal atentados dUSAmericanos e morreu, como outro célebre cavaleiro andante, tranquilamente, na cama. Todavia, ao contrário deste, não consta que se tenha arrependido de nada. É preciso cojones, pendejos.
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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Raul Brandão

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Estamos enterrados em convenções até ao pescoço: 
usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos. 
A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se. Adere. 
Há dias em que não distingo estes seres da minha própria alma; há dias em que através das máscaras vejo outras fisionomias, e, sob a impassibilidade, dor; 
há dias em que o céu e o inferno esperam e desesperam. 
Pressinto uma vida oculta, a questão é fazê-la vir à supuração.

in Húmus
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domingo, 13 de novembro de 2016

Manuel Maria Barbosa Hedois du Bocage

É pau, e rei dos paus, não marmelleiro.
Bem que duas gamboas lhe lobrigo;
Dá leite, sem ser árvore de figo,
Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;
Occo, qual sabugueiro tem o umbigo:
Brando ás vezes, qual vime, está comsigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

Á roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo e nú;
Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um u;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar metta-o no cu.

Soneto XIII, ou do pau decifrado
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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

António Domingues

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A última grande contratação do sector público para o campeonato nacional da alta finança é um pontadelança. Ou um mister, não sei bem.
António Domingues é o xepéxialuóne dos gestores de ponta. Vai gerir a Caixa Geral de Depósitos e vai ganhar quase tanto como Fernando Mendes (o actor que apresenta o Preço Certo na televisão pública) ou José Rodrigues dos Santos (o outro cómico que apresenta, logo a seguir, o noticiário das oito, também na televisão pública).
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Domingues está para o banco público mais ou menos como o Casillas para o FêQuêPê – também estava a preparar-se para, posto em sossêgo, degustar o doce fruito de uma merecida e esforçada reforma quando o foram desinquietar com o aliciante e irrecusável repto de fazer qualquer coisa grande outra vez.
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Mas como não há vedeta sem caprichos também não há grande campeonato sem polémica - o que, diga-se, apimenta a competição - Domingues recusa-se, porque-sim, a apresentar a declaração de rendimentos, como dizque manda-a-lei, ou os regulamentos ou lá o que é.
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Em todo o caso espero que acabe tudo em bem - quero dizer, que o sector público seja enfim bocejado pla sorte. Mas para já, fiz-lhe o retrato, para o meu álbum de “rostos da classe dirigente”. 
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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Posada

la muerte es democrática, 
ya que a fin de cuentas, 
güera, morena, rica o pobre, 
toda la gente acaba siendo calavera
José Guadalupe Posada
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