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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O sucialismo demucrático

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Então é assim:
a ADSE, em Janeiro deste ano, foi transformada em instituto público, com um regime especial e gestão participada, sendo um dos seus órgãos o Conselho Geral e de Supervisão.
No passado dia 19 de Setembro procedeu-se à eleição do Conselho de Supervisão.

Digam lá que não é lindo. O triunfo do sucialismo demucrático. Vamos a votos e depois ganha quem perde.

Não é tão lindo e exemplar como na Coreia do Norte ou na Guiné Equatorial onde, diga-se, invariavelmente só existe uma lista que invariavelmente vence porque ganha. Mas é exactamente como nos Estados Unidos da América, essoutro farol da demucracia, onde quem perde a eleição é escolhido para presidente. Lá, como cá, como se vê, os losers são os campeões.

Assim, João Proença, o repolhudo e amarelo ex-secretário da UGT - organização de trabalhadores que assinou de cruz todos os acordos de concertação social com todos os governos, mesmo os mais reaccionários, desde o o 25deNovembro - prepara-se para assumir funções de acompanhamento, controlo, consulta e participação na definição das linhas gerais de actuação da ADSE.

Contentes? Ainda agora começou.
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sábado, 30 de setembro de 2017

Liberdade para Ramón Esono

(Esono na sua prancheta, em Julho deste ano)
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O pintor e desenhador de humor gráfico Ramón Esono Ebale foi detido na capital do seu país, a Guiné Equatorial, e levado para uma prisão conhecida popularmente pelo sugestivo nome de Guantánamo, onde está incomunicável desde então. 
Sem acusação, sabe-se que foi abundantemente interrogado a propósito de uns quantos desenhos onde retrata o seu inefável presidente (que eu próprio já retratei aqui) nas mais variadas posições


parece que as autoridades de Malabo são particularmente sensíveis à difusão destes bonecos pla internet - e em estórias ilustradas igualmente eloquentes, como esta, por exemplo:



Como se trata de um país irmão, membro da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e tudo, espero que a todo o momento, o nosso presidente da República se manifeste a propósito e o nosso ministro dos estrangeiros também tenha algo enfim a dzer, em português já agora, ao embaixador do país do senhor Obiang. Enfim sobre liberdade de expressão e essas merdas.
Cá por mim, como não gosto que alguém seja incomodado por dizer e escrever e desenhar o que pensa, estou solidário com o bravo Ramón Esono.
E vós que me visitais, se por acaso também estais, fazei como eu, o que o senhor Obiang não gosta: repliquem os desenhos de Esono na internet.
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sábado, 23 de setembro de 2017

O gigante e os anões

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Este ano, na Figueira, o dia da cidade coincidiu com um dia normal de campanha eleitoral. O geniozinho imbecil que coordena a campanha autárquica do Partido Socialista na Figueira da Foz deve ter tido uma erecção. O seu cerebrozinho de apenas um neurónio fez tilt (terá mesmo ejaculado, ou evacuado, por qualquer das extremidades) de auto-satisfação, por ter notado a feliz coincidência. E, num lampejo de esperteza saloia, arresolveu assinalá-la com uma série de inaugurações, entregas de prémios e homenagens públicas a personalidades locais. É verdade, a Câmara Municipal não arranjou melhor oportunidade para homenagear o escultor Gustavo Bastos, o escritor João Gaspar Simões, o arquitecto Isaías Cardoso e o político e advogado Luís de Melo Biscaia.

Por mero acaso assisti à que foi prestada a Luís de Melo Biscaia. Tratava-se de dar o seu nome ao largo onde teve o escritório de advogado por mais de quarenta anos.
Foi assim. Ia eu muito descansado a passar pla rua da República quando reparei, em frente ao Café Nau, num ajuntamento inusitado de engravatados. Logo depois, lobriguei a presença das duas corporações de Bombeiros. Juntos, os Municipais e os Voluntários. Hmm. Farpelas de gala. Estandartes ao alto. Hmm, pensei eu baixinho, aqui há coisa. Acerquei-me. Deparei, entre os mirones, com algumas caras conhecidas. Deixei-me estar. Mirei. E não gostei.
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Suponho que o próprio Melo Biscaia também não teria gostado.
Apesar do belo, digno e emocionado discurso do seu filho Pedro, Melo Biscaia teria com certeza torcido o nariz à ideia peregrina de ver o seu nome servir de pretexto para um tão óbvio como reles aproveitamento político em campanha eleitoral.
Mas o pior veio depois. Melo Biscaia, se tivesse assistido a tão penoso sacrifício teria, sem dúvida, franzido o sobrolho e arranjado motivo para se despedir à francesa, embaraçado, para ir fumar uma das suas longas cigarrilhas bem longe dali.
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A pièce de resistance da pepineira em questão foi o discurso imbecil e desastrado, repleto de gaffes e partes gagas improvisadas a despropósito, do presidente da Câmara. É realmente impressionante como alguém, nitidamente despreparado, em discurso oficial e cerimónia solene, consegue na mesma frase chamar general ao marechal Norton de Matos, confundi-lo com Humberto Delgado, trocar 1949 por 58 e na frase seguinte, atribuir a paternidade do homenageado ao seu tio Severo Biscaia. 
É bem verdade que por mais que se encoste a um gigante, um anão nunca lhe tira o sol. Mas eu, que não tinha nada que ver com aquilo, senti-me envergonhado. Imagino como se sentiu a família. Há homenagens que são enxovalhos. Melo Biscaia merecia mais. Muito melhor.
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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Breve declaração política

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Embora há anos tenha participação política activa emprestando o meu nome a uma candidatura (sempre a mesma, a CDU, Coligação Democrática Unitária), esta é contudo a primeira vez que, levado pelas circunstâncias, me vejo (e ao meu nome) numa posição ou lugar elegível. Este dado, assim adquirido, também me dá mais responsabilidades. É neste contexto que, agora que se inicia a campanha eleitoral, encaro como útil a publicação de uma declaração de princípios. Que é também a primeira promessa eleitoral que faço na minha vida. Faço-o no meu blog e na minha página do Facebook, que são os meios que tenho, confiando na viralidade das redes sociais para a sua justificada repercussão.

Declaro que não sei quem fez isto (o que a foto documenta). Nem quero saber. Considero no entanto que, ao contrário do que por vezes se diz e alardeia,
 a sociedade civil existe mesmo. Mesmo em Maiorca existe alguém que se importa. 
E importa-se ao ponto de se tirar dos seus cuidados e fazer este notável manifesto gráfico de uma evidência que nos envergonha a todos.

Declaro mais, solenemente, que, se eu for eleito e a lista que represento vencer as eleições, esta placa tão veementemente pichada ficará em exposição permanente, para opróbrio dos responsáveis, o tempo que for necessário - até à conclusão definitiva das obras de recuperação do Paço de Maiorca.

Declaro ainda que só então, recuperada a dignidade de um património único no concelho, a placa será retirada (e para um museu, de memória histórica).

Vale,
Fernando Campos

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sábado, 9 de setembro de 2017

A cavaca da saúde

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Ana Rita Cavaco é bastonária de uma coisa em forma de assim, a Ordem dos enfermeiros (foi eleita à segunda volta numas eleições com 87,65% de abstenção). Já foi governante (adjunta do secretário d'estado da saúde do XV Governo Constitucional, liderado por Durão Barroso). Presumo que até tenha sido escuteira, menina de coro ou acólita e até tenha participado em imensas e glamorosas acções de voluntariado.
Recentemente apoiou, com as mãos ambas, e a pés juntos, uma greve de zelo por tempo indeterminado (leram bem) nos hospitais públicos, decretada por dois sindicatos de enfermeiros.

Muito haveria que dizer sobre a greve de zelo
Para o escritor Rui Cardoso Martins, por exemplo, “A greve mais estranha é a greve de zelo, que é esquizofrénica: distorce o direito à greve, o direito ao trabalho e, por assim dizer, o próprio Direito do Trabalho, há uma hilariante legislação para a explicar: "O abrandamento da actividade produtiva pela aplicação minuciosíssima, literal e chicaneira dos regulamentos existentes", escreve o prof. Bernardo da Gama Lobo Xavier. Isto é, "não há propriamente uma abstenção da prestação do trabalho, mas a sua aplicação em termos anormais". Imaginem o funcionário da alfândega abrindo as malas de todos os passageiros,conferindo os pêlos da escova de dentes, etc. Quando certos profissionais "resolvem dar um funcionamento rígido aos regulamentos dos serviços, causando assim enormes atrasos". A greve de zelo, portanto, não é ir para o trabalho e não fazer nenhum, é fazer de mais. As coisas param de tanto funcionar.”
Já para mim, a greve de zelo é, simplesmente, a greve dos cobardes e dos sonsos. A greve dos que não têm tomates para parar o trabalho e dizer em voz alta: não faço isto a não ser que me paguem mais. É a greve dos merdosos.

Mais palavras para quê.

Ah, esta cavaca também pertence a outra coisa, esta em forma de assado: ao Conselho nacional do PSD, eleita nas listas de Passos Coelho. E agora também, claro, à minha galeria de caricaturas do rosto da classe dirigente.
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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O walesa da Moita

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E horas depois, quando chegou à clareira, enveredou, decidido, pelo caminho dos cardos e das árvores sinistras, a gritar desafiante para a floresta:
- Bem sei que podem perseguir-me, arrancar-me os olhos, torcer-me as orelhas, transformar-me em lagarto, em morcego, em aranha, em lacrau! Mas juro que não hei-de ser infeliz PORQUE NÂO QUERO.
E João-sem-medo continuou a subir o caminho árduo, resoluto na sua pertinácia de ocultar o medo - a única valentia verdadeira dos homens verdadeiros.
    José Gomes Ferreira, in Aventuras de João sem medo

Chora-que-logo-bebes está que nem pode. Consternada pelas repercussões catastróficas da aposentação de António Chora.
Chora é deputado municipal na Moita desde 1975. Além disso, foi deputado na Assembleia da República. Pelo Bloco de Esquerda. Mas foi sobretudo um sindicalista sui-generis. Escolhido a dedo pela administração da Auto-Europa para líder da comissão de trabalhadores (a empresa não negoceia com sindicatos) durante o seu consulado de vinte anos nunca a empresa conheceu uma greve. Mas além disso, criou empregos. Só visto: “Estive na liderança da comissão de trabalhadores de 1996 até 2016. E orgulho-me de ter sido membro de uma CT que começou numa fábrica com 144 pessoas. Saí de lá com 4 mil”, disse ele ao “Negócios”.
É um espanto que nunca tenha sido condecorado pelo Cavaco, outro choraquelogobebense emérito.

A aposentação do seu filho dilecto, depois de ter visto chumbados pelos trabalhadores dois acordos negociados pela CT, foi pois muito mais do que uma tragédia, foi uma catástrofe, uma hecatombe para Chora-que-logo-bebes.
Sete meses apenas depois de se aposentar eis que a Auto-Europa está em brasa – em greve – a comissão de trabalhadores que lhe sucedeu demitiu-se e os comunistas preparam o assalto ao castelo, diz Chora, fungando. Se eu ainda lá estivesse esta greve já estava desconvocada – regougou, resfolegando.
Os choraquelogobebenses estão inconsoláveis. Não podem trabalhar aos sábados sem horas extraordinárias, como manda a administração. Agora que os vermelhos fizeram a greve (pularam a cerca, assaltaram o castelo, o palácio d'inverno) os chora-que-logo-bebenses temem represálias, bichas de sete bocas, gigantes de cinco braços, dragões de duas goelas, as sete pragas do Egipto. As televisões de Chora-que-logo-bebes enchem-se de especialistas, como o Camilo Lourenço e o Sousa Tavares, que se manifestam espavoridos e preocupados com a imagem de Chora-que-logo-bebes perante os investidores estrangeiros, com as reacções dos mercados, com o futuro da empresa, o emprego, os dezporcento das exportações, enfim plo pibe de Chora-que-logo-bebes. Choram dia e noite, baba e ranho, em chuveirinho, soluçante e abnegado.
- E se os alemões se zangam connosco e vão mandar fazer automóveis a diesel para a Polónia ou assim? - carpem uns. - Diz que por lá os sindicalistas são todos fofinhos e quase tão anti-comunistas como o choraquelogobebense da Moita - jeremiam outros.

Mas nem tudo está perdido. As esperanças dos choraquelogobebenses estão agora todas depositadas na eleição da nova comissão de trabalhadores. Como a empresa não negoceia com sindicatos, os choras esperam que os trabalhadores, como de costume, elejam alguém nomeado pla administração. Aí sim, a paz social voltará ao vale dos soluços.

Só então António Chora, aliviado, se dedicará finalmente ao seu sonho de aposentado: “dar "aulas de sindicalismo" em escolas técnico-profissionais. Ou seja: ensinar aos estudantes que no mundo do trabalho "isto não é só obedecer a tudo", que têm direitos e que os devem exercer - e como o fazer”. 
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sábado, 26 de agosto de 2017

O eu e o outro

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Nunca recolhi material. Africano nascido em Moçambique, mas medrado em Angola desde mal saído do berço, a Angola devo a minha vida de escritor.
Quando em 1937 abandonei Angola, estava longe de vir a ser um escritor. Depois de reviver a minha vida de Angola, fazendo tábua rasa de ideias feitas, dando-me conta de erros de interpretação originados pelo clima social vivido desde a infância numa sociedade em formação, heterogénea pela sua própria natureza, sem outras raízes que não fossem os seus interesses circunstanciais, e sempre marginal, colocado, no tempo e no espaço, numa posição que possibilitou novas perspectivas: o homem e sua forte autenticidade.
E nunca mais deixei de estar em Angola, embora habitando em Lisboa ou no Rio de Janeiro, em Paris ou em Buenos Aires. Debruçado sobre a minha vida africana, servindo-me da minha própria experiência e da experiência dos homens que me levaram a meditar sobre a sua vida e no seu destino, procurei estudá-los, situando-os na sua idade histórica, no condicionamento do seu campo económico-social e nos planos das suas relações humanas. O homem em face do destino e nos limites da sua condição humana.
Libertado de todos os preconceitos e prejuízos, sempre considerei os homens humanamente iguais, embora de civilizações diferentes. Nenhum homem de cultura progressiva aceita a superioridade desta ou daquela civilização e sabe que os seus valores morais essenciais tem uma base comum. Daí a universalidade do homem para além das coordenadas definidas pelos padrões culturais que caracterizam as várias civilizações. Fora, ou à margem desta verdade, o homem toma posição racista, seja ele branco, amarelo ou negro. Uma posição anticultura. Tudo o mais diz respeito ao progresso das técnicas e das ciências, que qualquer homem de qualquer raça aprende, aplica e desenvolve consoante a sua capacidade e os meios que ponham ao seu dispor
Castro Soromenho
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Agora que, “à margem desta verdade”, está de novo em moda no mundo o preconceito racista, Portugal, como sempre, trata afanosamente do seu aggiornamento e, em simultâneo, da sua negação. Ao mesmo tempo que pululam nas redes sociais, e até nos media tradicionais, velhos preconceitos que se julgavam ultrapassados, o país oficial, com a boa-consciência que dá a má-memória – o nacional-porreirismo é filho lídimo da estupidez natural - assume o passado colonial da pátria como uma coisa neutra, ou até mesmo “compassiva“. Do género ”tá bem, a gente escravizava os gajos, obrigávamosios a trabalhar de borla e tal, mas era um são convívio, dávamos-lhes vinho e porrada a horas certas e até nos deitávamos com as gajas e tudo. Uma coisa que os esquisitinhos dos bifes, e os belgas, esses racistas de merda, nunca fizeram. E isto sem falar dos cabrões dos francíus; e dos estafermos dos alemões, os piores de todos.” Foi mais ou menos este discurso imbecil (somos os melhores dos piores) que o presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi fazer à ilha de Gorée (ao largo de Dakar, no Senegal) um entreposto negreiro português desde o século XVI até ao XIX.
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Apesar de haver intelectuais (como a corajosa Alexandra Lucas Coelho) que hoje se manifestam abertamente por uma assunção pública de responsabilidades pelo desvario esclavagista do qual o país fez depender a sua economia por mais de quatro séculos, a verdade é que nunca houve por parte dos intelectuais portugueses (das ciências ou das letras) qualquer interesse pela humanidade do outro, do colonizado. Ou então nunca o manifestaram por obras. Envie-se um português à Lua ou a Marte e ele nunca manifestará um mínimo de curiosidade, só saudades de casa. Portugal esteve quatro séculos em Macau e nunca produziu um sinólogo - nunca nenhum português se interessou pela China, estudou a sua língua, a sua história, a sua cultura – é o mesmo que viver quatrocentos anos na savana e nunca reparar na existência dos elefantes. O mesmo aconteceu na Índia. E na América do sul. E na África.
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Também é verdade que houve excepções. Honrosas, ainda que a ditosa pátria as prefira esquecidas, e tão poucas que se podem facilmente nomear. O caso de Wenceslau de Moraes, por exemplo, que se fixou no Japão e se deixou mansamente japonizar, e o de Castro Soromenho, que se descobriu escritor e etnólogo quando deixou Angola para um longo exílio.
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Embora hoje seja completamente ignorado em Portugal e Angola, muito justamente, o reclame como um dos seus, a verdade é que Soromenho não se angolanizou. Ele foi apenas um escritor português raro, que nunca teve desassossêgos existenciais com a alma lusitana, delíquios de saudade da sardinha assada ou devaneios delirantes com a suposta grandeza da pátria amada ou da língua; também jamais carpiu melancolias ou perplexidades sobre a identidade nacional. Soromenho interessava-se genuinamente pelo outro, pela sua condição humana, e pela humanidade de ambos - só assim soube, com sincera curiosidade, como etnólogo, estudar outra cultura sem condescendência ou preconceitos de superioridade e, como romancista, mostrar sem qualquer manto diáfano de fantasia, a corrupção moral do sistema colonial português em toda a sua nefanda e crua iniquidade. E fê-lo em português. Um português assim era demasiado raro, demasiado excepcional, demasiado humano para ter pátria. E assim morreu. Apátrida, em S. Paulo, Brasil, como referia a carteira de identidade para estrangeiros de que era portador.
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